A outra face da Disbiose: você conhece a Candidíase, deixe eu lhe apresentar sua mãe, a SÍNDROME FÚNGICA


Publicado em: 22 de fevereiro de 2018

Todos nós temos bactérias e fungos no nosso intestino, bons e ruins. Porém quando a qualidade desses microorganismos está desequilibrada, ou seja, há mais dos ruins (patogênicos) do que dos bons (probióticos) falamos que há uma disbiose. Quando esse desequilíbrio favorecendo um aumento não só das bactérias, mas também dos fungos dizemos que há a síndrome fúngica.

A principal espécie patogênica de fungo é a Candida Albicans. Quando se fala em Candida logo associamos com candidíase – sim, se você tem candidíase de repetição você tem síndrome fúngica! – mas ela não causa somente essa, mas uma diversidade de doenças e sintomas.

Isso acontece porque parte da parede desses microorganismos ruins (o que chamamos de LPS ou lipopolissacarídeos) ruins entra dentro do nosso corpo pelo intestino e ativa diversos sistemas de defesa e de inflamação.

PRINCIPAIS DOENÇAS E SINTOMAS RELACIONADOS À SÍNDROME FÚNGICA:

  • Enxaqueca
  • Micoses
  • Infecção urinária
  • Queda de cabelo
  • Cansaço crônico e constante
  • Irritabilidade
  • Tonturas e fraqueza quando fica algum tempo sem comer
  • Necessidade constante e exagerada por doces
  • Bolinhas atrás do braço
  • Corrimento vaginal
  • Ansiedade
  • Língua esbranquiçada
  • Hipoglicemia
  • Distúrbios intestinais e intolerâncias
  • Deficiência de vitaminas

Se identifica com algum destes sintomas?

Outro sintoma clássico da síndrome fúngica e muito comum entre as pessoas é o aumento da fome depois de comer maça.

Você come maçã e logo depois tem um aumento exagerado da fome, parece que abre um buraco no estômago e você tem que comer com certa urgência? Associado à isso geralmente vem uma alteração de humor e a impaciência na espera por comer.

Isso acontece porque a maçã é uma das frutas com maior quantidade de uma substância chamada arabinose, um carboidrato que ao ser fermentada por fungos produz ácido tartárico, uma substância hipoglicemiante (provoca a queda de açúcar no sangue). Quando temos muitos fungos, temos muita produção de ácido tartárico e como consequência um quadro de hipoglicemia que gera a fome e a irritabilidade.

Gases e desconfortos intestinais são outros sintomas comuns. Quanto mais desequilibrada a microbiota do seu intestino, maior será sua produção de gases e menos você será capaz de tolerar alimentos que fermentam como os enxofrados (ovo, repolho, acelga, alho, brócolis) ou aqueles com alto teor de fibras – leguminosas (feijão, lentilhla), sementes, alguns vegetais e frutas.

Estes sintomas podem ser desconfortáveis e prejudicar nossa qualidade de vida até um certo ponto, mas a síndrome fúngica pode levar a cosequência muito sérias a longo prazo como Alzheimer, Síndrome do Ovário policístico, obesidade, doenças auto imunes (tireoidite de hashimoto, psoríase, artrite reumatóide, lúpus, fibromialgia), autismo (quando a gestante é portadora da síndrome) e até câncer!!

O QUE CAUSA A SÍNDROME FÚNGICA?

A alimentação tem um papel crucial, pois antes de nos alimentarmos, alimentamos as bactérias e fungos do nosso intestino. Dependendo dos alimentos que consumimos proliferamos um tipo de microorganismo. Além da qualidade dos alimentos que você consome, é importante também seu estado de conservação e a qualidade da sua digestão.

O fungo candida se alimenta de açúcar. E isso não afeta só quem adora um doce ou sobremesa. Mas qualquer consumo frequente ou exagerado de todo tipo de alimento que contém alto teor de carboidratos que se transformam em açúcar como: alimentos brancos e refinados o excesso de frutas, cereais (mesmo os integrais), raízes e tubérculos.

Ah… todos aqueles tipos alternativos de açúcares (mascavo, demerara, de coco, mel, melado) também estão na lista. Frutas secas ou tâmaras? Também! Doce é doce, e a candida não é boba! Gosta de tudo isso!

Outro fator da alimentação que favorece são os alimentos contaminados por fungos. Estão no topo da lista: amendoim,  castanhas (principalmente caju e pará), milho e alimentos com fácil contaminação de mofo ou bolor  como o morango, mamão e frutas secas (mesmo que você tire a parte estragada ou aquele único morango da bandeja e coma o resto, tudo está contaminado!).

 

Ah, e sabe aquela história de retirar a parte que está estragada e comer o resto?! Nada bom! Quando se trata de fungos, uma vez que conseguimos vê-los (como na forma de bolor) é porque ele já se espalhou por outros partes ainda não visíveis aos olhos na forma de esporos. Portanto, o indicado é jogar tudo fora.

 

Outros hábitos relacionados ao desenvolvimento da síndrome fúngica: 

  • Uso frequente de antibiótico, laxantes, antiácidos e corticóides
  • Estresse mental e emocional
  • Xenobióticos (agrotóxicos, metais pesados, susbtância químicas)
  • Não ter contato com a natureza, com a terra, com microoganismos do ambiente
  • Desequilíbrios hormonais
  • Má digestão e alergias alimentares não respeitadas
  • Alto nível de estrógeno (pois isso as mulheres são mais afetadas; o anticoncepcional atrapalha bastante)
  • Gravidez, diabetes, baixa imunidade, baixa capacidade de detoxificação

Então, oque eu posso fazer? 

1) A primeira etapa é mudar a alimentação mesmo!

É uma dieta restritiva? Sim! Vou ter que me alimentar desta maneira para sempre? Não!!! Se você tem um desequilibro você precisa de um tratamento.  Uma soma de hábitos alimentares e de vida não tão saudáveis em um longo período de tempo te trouce até aqui, então não espere que simplesmente tomar um remedinho irá te curar.

Coloque na balança. Hoje, oque você valoriza mais: seu doce de todo dia ou a possibilidade de viver a vida com mais energia, leveza e desempenho mental, sem dores e desconfortos?

Lembrando que quanto mais você conseguir restringir, mais rápida será sua recuperação.

Os alimentos que deverão ser excluídos durante o tratamento são:

  • Açúcar. De todo tipo: mel, melado, açúcar demerara, mascavo, de coco, agave, etc. É o alimento preferido do fungo e é preciso cortar mesmo, para que ele morra rapidamente.
  • Algumas frutas também devem ser excluídas, as com índice glicêmico mais alto como banana, maçã, mamão, caqui, uva, abacaxi, pêra, melancia. Os sucos de fruta também, viu?
  • Frutas secas, pois elas concentram muito mais açúcar que a fruta in natura e podem estar contaminadas com fungos.
  • Bebidas industrializadas como refrigerantes, sucos, águas com sabor, gatorade e afins. São riquíssimos em açúcar.
  • Bebidas alcólicas, principalmente as fermentadas como vinho e cerveja.
  • Café e outras bebidas estimulantes, pois mexem com o sistema nervoso e afetam o equilíbrio do açúcar no sangue, é melhor evitar.
  • Carboidratos refinados e de alto índice glicêmico. Farinhas no geral, batata inglesa, arroz, macarrão etc. Devem ser evitados pois, mesmo não tendo sabor doce, se transformam rapidamente em açúcar no sangue.
  • Amendoim. Nos períodos mais críticos é bom evitar pois o amendoim é facilmente contaminado por fungos. Outras oleaginosas, quando consumir, procure as de boa procedência.
  • Laticínios. Se você ainda consome derivados do leite, é o momento de cortá-los. São difíceis de digerir e vão promover fermentação.
  • Gorduras ruins. Estão presentes em quase todo produto industrializado, são os óleos vegetais refinados (milho, soja, canola) e gorduras trans. Elas aumentam a inflamação no organismo.

Também é interessante cuidar da forma como os alimentos são conservados na geladeira (estão abertos, destampados?) e não consumir preparações feitas à mais de 3 dias.

Ao comprar produtos à granel evite as farinhas e aqueles já moídos e tenha atenção às frutas secas e castanhas, elas não devem ter manchas ou pontos brancos.

2) Muitos dos desequilíbrios intestinais começam na digestão. Como já falamos que a candida é um desequilíbrio intestinal também temos esse foco no tratamento. Garantir uma boa digestão é essencial. Veja alguns alimentos:

  • Chá de gengibre ou alecrim bem concentrado logo antes ou depois (50ml)
  • Uso de enzimas digestivas, misturas adequadas, refeições sem excessos e devidamente aquecidas

3) É necessário entrar com alimentos e fitoterápicos antifúngicos, mas em um primeiro momento isso pode não ser recomendado dependendo do caso, pois a morte exacerbada dos fungos causa o que chamamos de die off, ou seja, a exacerbação dos sintomas devido a liberação de toxinas ocasionado pela morte dos fungos. Ela pode acontecer de 12h até 4 dias após a administração de antifúngicos. Além do desconforto dos sintomas, essa exacerbação sobrecarrega o fígado e pode ser necessário acompanhamento profissional e detoxificação com suplementos e fitoterápicos.

Nessa etapa também é importante investigar a ocorrência de alergias alimentares como a intolerância ao glúten, proteína do leite, soja, ovo ou outros alergênicos.

Os principais alimentos antifúngicos são:

  • Coco: óleo (em doses terapêuticas de 1-3col sopa/dia), água e polpa. O coco é rico em algumas substâncias com grande poder fungicida e bactericida, como o ácido láurico e ácido caprílico. Além disso, o coco é um dos alimentos mais nutritivos do mundo. A água ajuda a hidratar e repor minerais, a polpa e o óleo são ricos em gorduras boas e ainda auxiliam na saciedade 🙂
  • Alho. Ele é maravilhoso, aumenta a imunidade, é probiótico, anti-inflamatório e auxilia a recuperação ser mais rápida. Pode ser consumindo na comida ou na forma de óleo de alho (obs: se você tem sintomas fortes de hipoglicemia não faça uso do óleo de alho)
  • Gengibre e cúrcuma. Raízes com ótimas ações anti-inflamatórias, também auxiliam na digestão e vão aumentar a imunidades.
  • Frutas vermelhas. Ricas em antioxidantes e com baixo índice-glicêmico! Se joga, miga!!!!
  • Probióticos. Probióticos são alimentos e bebidas ricas em microorganismos do bem, amigos, lindos, maravilhosos que vão propiciar o povoamento de bactérias benéficas no organismo vs os fungos e bactérias patogênicas. Você encontra-los na forma de suplementos em lojas de produtos naturais e farmácias de manipulação ou na forma de alimentos probióticos: missô, chucrute, picles caseiro, kefir, kombucha, rejuvelac. Muito se fala do kefir, e ele realmente tem ótimos benefícios. Porém, como o cultivo é bastante caseiro e ele é repassado de pessoa a pessoa na forma de doação, não temos um bom controle microbiológico. Em um organismo sensível e mais debilitado como na candidíase meu protocolo é não utilizar o kefir e fazer o uso de outros probióticos com manipulação mais controlada.
  • Prebióticos. Os prebióticos são alimentos para os probióticos. Muito importante adicionar na alimentação também, pois nada adianta ter vários amigos novos no intestino se não tiver comida para eles, né? O amido resistente é um ótimo prebiótico e você encontra ele na biomassa de banana verde, aipim, inhame e algumas outras raízes. A concentração do AR varia muito dependendo da maturação do alimento, método de cocção e temperatura.
  • Ervas como orégano, tomilho e alecrim. São super antifúngicas! Você pode fazer chá com elas ou caprichar no tempero da sua comida do dia-dia. Outras ervas interessantes são o cravo, canela e a sálvia.
  • Semente de abóbora (priorize as sementes às castanhas de forma geral)
  • Cranberry
  • Glutamina. Protege e recupera as vilosidades intestinais, que provavelmente vão estar bem prejudicadas.
  • Suplementos como ácido caprílico, pau d`arco,  berberina, óleo de alho ou orégano, unha de gato dentre outros

Segue um receitinha muito propícia e deliciosa para o tratamento: Leite vegetal anti candida

  • 200ml de leite de semente de abóbora (precisa ser a sem casca. Use 1/2 xic para 2 xic de água)
  • 1 col café de canela em pó + 1 col café de gengibre em pó + 1/2 col café de cravo em pó + opcional (cardamomo, cúrcuma)
  • 1 col chá de óleo de coco
  • uma pitada de sal + xylitol ou 20g de chocolate 70% ou mais ou 1 col sobremesa de alfarroba

Estes são alimentos interessantes para incluir na alimentação devido a suas propriedades específicas. Agora, para você não se apavorar com a lista de alimentos restritos, vou deixar aqui uma lista de todos os outros alimentos que farão parte da sua dieta:

4) O quarto passo é melhorar a imunidade e garantir um bom sistema de detoxificação. Quando matamos os fungos as toxinas deles ainda são liberadas, porém tudo de uma vez. Essa sobrecarga pode gerar piora momentânea dos sintomas e demanda de uma boa imunidade e capacidade de limpeza do organismo. Para isso inclua:

  • Spirulina ou chlorella
  • Muitos vegetais das brássicas (brócolis, couve, couve flor, repolho, acelga)
  • Alimentos ricos em fibras como a biomassa de banana verde, o psillium, chia
  • Gengibre, chá verde, própolis, pólen, cogumelos
  • Alimentos ricos em vitamina C: acerola, caju, goiaba (cítricos devem ser analisados caso a caso)
  • Suplementos como NAC, molibdênio, selênio, silimarina, astragallus, glutamina, probióticos dentre outros

5) Fora a alimentação, o stress e hábitos também influenciam muito no quadro e no tratamento. Portanto, procure incluir uma prática de meditação, algum exercício físico que permita você se conectar com você mesma ou desligar de todo o resto, busque fazer atividades que te dão prazer. O carinho com que você se tratar durante este período facilitará bastante o tratamento 🙂

No caso da candidíase, evite roupas muitos justas, calcinhas de tecido sintético, biquíni molhado e tente deixar a região vaginal com a menor umidade possível. Durma sem calcinha, também ajuda! ihihihi

Por fim, tenha paciência com o tratamento!

O mais importante desse processo é ter consciência de que ele é demorado. Você não vai mudar sua microbiota intestinal da noite pro dia. Além da mudança é necessário persistência dos hábitos. A mudança total e eliminação dos sintomas pode levar de alguns meses até alguns anos.

Ao fazer mudanças você pode sentir melhoras dentro de um mês, mas isso não necessariamente significa que os fungos foram embora – infelizmente 🙁 Isso acontece porque a Cândida consegue se transformar em uma forma inativa quando o ambiente não lhe está favorável. Mas se você tem um desequilíbrio, lá estará ela se manifestando novamente.

O tratamento completo envolveria a redução também das formas inativas. Isso pode levar de 6 meses há 1-2 anos, dependendo do caso. Isso não significa que ficará por todo esse tempo com restrições, mas provavelmente acompanhando com antifúngicos e maior consciência alimentar.

Por outro lado também temos que ter cuidado ao estimular a morte dos fungos. Quando eles morrem liberam de uma só vez as toxinas que produzem, que atravessam a barreira do intestino, entram no nosso corpo e promovem aumento dos sintomas por um período!

 

O conteúdo deste artigo é informativo mas não substitui uma consulta ou tratamento nutricional. Procure uma nutricionista funcional mais perto de você.

Sindrome Fúngica: uma epidemia oculta. Denise Carreiro, Luana Vasconcelos e Maria Elizabeth Ayob