Glúten. O que é e porque tem tanta gente fugindo dele?


Publicado em: 15 de maio de 2018

Vamos conversar sobre o vilão alimentar mais famoso dos últimos anos? O glúten!

O glúten faz mal? Tirar o glúten emagrece? Devo preferir alimentos sem glúten ao invés dos alimentos com trigo integral? É modismo ou terrorismo alimentar?

Vamos entender melhor esse assunto.

O glúten é uma proteína naturalmente encontrada em certos grãos (trigo, cevada e centeio), mas que devido a industrialização alimentar agora é encontrado em quase todos os lugares em nosso mundo moderno. É claro que está em alimentos à base de farinha, como macarrão e pão, mas também é usado em medicamentos e suplementos, é a ‘cola’ que ‘gruda’ substitutos de carne, está em quase todos os produtos industrializados, está em produtos corporais como shampoo e pasta de dente e, graças a contaminação cruzada, está presente mesmo em grãos que naturalmente não possuem glúten como a aveia.

Aí agente já começa a ver um probleminha, porque tudo que é demais não é bom.

As pessoas comeram trigo, cevada e centeio por muitos anos. Por que a intolerância ao glúten é uma epidemia moderna? O trigo é inclusive citado na bíblia.

Os seres humanos durante muitos séculos consumiram glúten, mas principalmente sob uma forma germinada. Na verdade, é bem sabido que o povo hebreu da Bíblia brotava seus grãos para fazer pão. O processo de germinação ativa as principais enzimas que ajudam a digerir e metabolizar o glúten.

Quero salientar que o nosso glúten moderno não é o mesmo glúten que seus avós comeram. Para criar pães e bolos cada vez mais fofinhos e uma farinha que rendesse mais, os cientistas desenvolveram novas variedades híbridas de trigo que contêm formas totalmente novas de glúten que não se encontram nas plantas originais.  Então não só estamos comendo um tipo de glúten diferente do que nossos antepassados ​​comeram, estamos comendo e sendo expostos a quantidades maiores dele no nosso dia a dia.

O grande problema do novo glúten é que o organismo humano não é capaz de digerir ele completamente, ou seja, não conseguimos quebrar a molécula da proteína até suas particulares menores, chamadas de aminoácidos. Quando comemos o glúten oque chega ao nosso intestino são cadeias grande de aminoácidos, conhecidas como peptídeos. Isso por si só não é bom, mas esses peptídeos do glúten são especialmente mais prejudiciais do que os de qualquer outro alimento. Um deles chamado de GLIADINA tem a capacidade de aumentar a expressão e ativação de uma proteína chamada Zonulina que causa Hiperpermeabilidade intestinal, oque permite que outras partículas de proteínas não digeridas, toxinas e micro-organismos entrem na nossa corrente sanguínea. Portanto o glúten causa problemas para a saúde intestinal e seu sistema imunológico, criando uma tempestade perfeita para o desenvolvimento e progressão de doenças inflamatórias e auto-imunes.

Se você tiver uma doença auto-imune, ou qualquer condição inflamatória, você não deveria estar comendo glúten, ponto final.
Se você tem uma doença auto-imune, então isso significa que em algum lugar ao longo do caminho, seu sistema imunológico foi desonesto e começou a atacar os tecidos do seu próprio corpo. Essa mudança de saudável para auto-imune não é instantânea, acontece ao longo dos anos. É um espectro, e o fator que o empurra para o espectro e para a auto-imunidade é a inflamação.

A inflamação é a resposta natural do seu sistema imunológico a tudo o que considera perigoso, seja um corte, um vírus ou o glúten que você comeu em um pedaço de bolo de aniversário que chega a sua corrente sanguínea através do seu intestino hiperpermeável. Estima-se que um por cento da população tenha doença celíaca e uma em cada 30 pessoas tenha uma sensibilidade ao glúten – e comer glúten provoca inflamação toda vez que o consomem. Além disso, estima-se que 99 por cento das pessoas com sensibilidade ao glúten não são diagnosticadas, então eles estão alimentando as chamas de sua inflamação sem mesmo saber disso.

Quando seu sistema imunológico está criando inflamação continuamente em resposta ao glúten que está comendo, seu intestino hiperpermeável e os micróbios e toxinas que inundam a corrente sanguínea, você desenvolve uma inflamação crônica. Seu sistema imunológico está agora estressado e é menos capaz de atacar patógenos e invasores com precisão. Em vez disso, começa a enviar indiscriminadamente onda após onda de ataque em uma tentativa desesperada de combater os invasores. Eventualmente, os tecidos do seu corpo acabam sendo atingidos pelo ataque e você acaba com uma doença auto-imune.

A única maneira de dar ao seu sistema imunológico o que ele precisa para recuperar sua precisão para que ele possa parar de atacá-lo equivocadamente, é remover completamente o glúten. Essa última palavra, completamente, é importante porque pesquisas recentes mostraram que comer glúten pode elevar seus anticorpos contra glúten por até três meses, o que significa que, mesmo que você coma apenas quatro vezes ao ano, você estaria em estado de inflamação o ano todo.

Além de criar um intestino hiperpermeável, o glúten representa um risco sério para aqueles de nós com auto-imunidade por causa de um fenômeno chamado mimetismo molecular, que é um caso perigoso de identidade equivocada.

Toda vez que seu corpo está exposto a um invasor (neste caso o glúten), seu sistema imunológico memoriza sua estrutura para que ele possa desenvolver a defesa perfeita contra esse agressor e reconhecê-lo no futuro. Infelizmente, o sistema de reconhecimento do sistema imunológico não é perfeito; Quando a estrutura de uma molécula é suficientemente similar, o sistema imunológico a registra como invasor e a ataca. O glúten, que é uma proteína particularmente grande, é estruturalmente semelhante a uma série de células do seu corpo, particularmente da sua tireóide.

Naqueles com doença auto-imune da tiróide , cada vez que comem glúten, o sistema imunológico envia anticorpos para detectar e destruir o glúten, mas como o glúten e a glândula tireoide são tão semelhantes, algumas dessas células imunes acabam atacando a tireóide por engano.

A maioria das pessoas associa problemas de sensibilidade ao glúten com problemas digestivos, como doença celíaca e síndrome do intestino irritável. Enquanto o glúten tem um efeito muito negativo no sistema digestivo, ele também inflama outras regiões do corpo, dependendo da sua predisposição genética. Essas predisposições genéticas estão inativas até o estresse ambiental excessivo ativá-las. Os estresses ambientais podem surgir sob a forma de infecções por organismos oportunistas, toxicidade, desnutrição, estresse nervoso físico, falta de sono e altos desafios emocionais.

A intolerância ao glúten é altamente associada a distúrbios inflamatórios de todos os tipos. Também é um fator contribuinte em muitas doenças auto-imunes, como doença celíaca, artrite reumatóide, diabetes tipo I, tireoidite de Hashimoto, cardiomiopatia auto-imune, linfoma e dermatite herpetiforme (doença da pele) entre outros. Também é vinculado como um fator contribuinte na asma, alergias e eczema.

Então o glúten faz mal para todo mundo?

Não necessariamente. Por mais que ele não seja digerido por nenhum de nós, muitas pessoas felizmente tem um sistema gastrointestinal integro e resistente podendo tolerar o glúten sem muitos efeitos adversos. Porém, se você tem qualquer um dos sintomas citados acima eu recomendo que você faça um teste de eliminação. Experimente ficar um meses sem consumir glúten (oque não é tão difícil hoje em dia) e veja se seus sintomas diminuem. Volte a consumi-lo e veja se eles se agravam novamente. Se você notar alguma diferença procure um nutricionista funcional para te orientar melhor.

E porque tantas pessoas criticam a retirada do glúten e dizem que isso é moda?

Porque para a felicidade delas, elas toleram bem o glúten e nunca sentiram na pele ou viram na prática clínica como a retirada deste composto reduz drasticamente sintomas desconfortáveis e melhora a qualidade de vida das pessoas.

E tirar glúten emagrece?

Se não tem sensibilidade ao glúten talvez não. Se você tem sim. A inflamação causada por ele pode estimular o acúmulo de gordura. Mas não adianta tirar o glúten e se empanturrar de alimentos sem glúten mas feitos de farinhas refinadas, açúcar e aditivos alimentares.

Os benefícios de uma dieta anti-inflamatória superam os benefícios momentâneos sensoriais ou sociais associados à ingestão de glúten, açúcar e outros alimentos inflamatórios.
Quando você desiste de glúten, açúcar e minimiza outros agentes inflamatórios, você se sentirá significativamente melhor. Sua pele ficará mais clara, seu cabelo mais brilhante e suas articulações serão mais fortes. Seu raciocínio será mais nítido e você terá a memória melhorada e mais equilíbrio emocional.

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