O SEGUNDO CÉREBRO: como o Intestino afeta nossos padrões comportamentais e emocionais?


Publicado em: 21 de fevereiro de 2018

O coração, o fígado e os rins que nos perdoem, mas não há órgão mais fascinante que o intestino. A começar pelo seu tamanho descomunal: se abríssemos e esticássemos seus dois trechos – o delgado e o grosso -, ele ocuparia uma área de 250 metros quadrados, o equivalente a uma quadra de tênis. Tudo está enrolado e compactado dentro do ventre. E olha que isso nem é o aspecto mais interessante da coisa: o intestino tem neurônios e aloja trilhões de bactérias, boa parte delas envolvida em processos cruciais ao organismo. E você pensando que ele era um longo tubo por onde a comida passa, nutrientes são absorvidos e o que não é aproveitado vira cocô.

Espera: neurônios lá no abdômen? Sim, falamos das mesmíssimas células que constituem o cérebro.

O intestino tem cerca de 500 milhões de células neuronais, é menos que a massa cinzenta, que tem bilhões, mas o suficiente para formar um sistema nervoso próprio e que opera sozinho, captando informações, processando e respondendo de acordo com a necessidade do momento, independente do comando cerebral. O sistema nervoso intestinal é responsável por coordenar tarefas como a liberação de substâncias digestivas e os movimentos que estimulam o bolo fecal a ir embora. Em outras palavras, os intestinos também pensam, decidem e executam tarefas tal qual um cérebro. Dá pra entender por que apelidaram o intestino de segundo cérebro?

Os neurotransmissores produzidos no intestino são encarregados de transmitir recados de um lado para o outro e estabelecer comunicação eficiente entre o intestino e o sistema nervoso central. Essa conversa acontece diretamente por meio do nervo vago, estrutura que passa pelo tórax e liga o sistema gastrointestinal à cabeça. O nervo vago é uma via de mão dupla: assim como o intestino manda mensagens para a massa o cérebro, o correio inverso também ocorre. É por isso que, diante de uma situação de estresse, podemos sentir frio na barriga ou vontade de ir ao banheiro.

Os neurônios intestinais chamam a atenção também pela sua farta produção de serotonina, 90% da serotonina descarregada pelo corpo é fabricada ali. A serotonina é o neurotransmissor que nos proporciona a alegria e a inteligência emocional, de que tanto precisamos para viver bem. Ou seja, nossa felicidade começam realmente a partir do intestino! Precisamos garantir a esse fantástico órgão matérias-primas de primeira qualidade, o que conseguimos com uma alimentação saudável.

E mais, a serotonina é a precursora da melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal, o centro superior de processamento de informação eletromagnética, bastante conhecido como auxiliar do bom sono. A melatonina é também o antioxidante mais poderoso produzido pelo organismo.

A serotonina e a melatonina têm uma relação de alternância. A primeira predomina quando o cérebro se encontra em estado de alerta e a segunda nos períodos de sono. O que não se sabia até recentemente é que ambas são secretadas pelas glândulas dos intestinos, e não apenas pela pineal. Esta dupla dinâmica aumenta a qualidade do sono, a sensação de bem-estar, o otimismo, o bom humor, a capacidade de atenção e de raciocínio. Os pensamentos ficam mais leves e a vida mais prazerosa.

O outro mecanismo que liga o intestino diretamente com o cérebro e as nossas emoções são as reações imunológicas que podem acontecer nele. Nós temos células imunes no decorrer do nosso intestino que liberam citocinas que comunicam ao resto do nosso corpo o que está acontecendo no intestino. Se estamos consumindo uma grande quantidade de alimentos inflamatórios (glúten, lactose, caseína, açúcar, adoçantes artificiais, gordura trans, conservantes, corantes), estas células imunes irão secretar citocinas com sinalização inflamatória que ao chegarem no cérebro ativarão as células imunes que estão nele a liberarem estímulos excitatórios que podem vir na forma de dores de cabeça, falta de atenção, ansiedade, comportamentos explosivos e problemas de humor.

Há um quarto elemento que interfere nessa conexão: a cada vez mais estudada flora intestinal. Microbiota, para sermos corretos. O intestino carrega cerca de 100 trilhões de bactérias, quantidade dez vezes superior ao número de células humanas do corpo. Esse contingente representa de 2 a 3 quilos do peso total de um indivíduo. A microbiota tem papel decisivo na manutenção da saúde. Ela auxilia a digerir alimentos e a nos proteger de infecções. A princípio, nossa relação com essas bactérias é pacífica e proveitosa para os dois lados: elas conseguem obter nutrientes necessários para sobreviver e, em troca, regulam nosso organismo.

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De uns dez anos pra cá, o interesse por essa metrópole microscópica só aumenta. Nos Estados Unidos, especialistas de 80 centros de pesquisa lançaram o Projeto Microbioma Humano, que mapeou todos os bichinhos que chamam nosso organismo de lar. A partir dessa iniciativa, hoje se começa a entender como a flora interfere na predisposição a várias doenças e é capaz de influenciar até o comportamento e as emoções das pessoas.

Condições como a síndrome do intestino irritável, marcada por diarreia ou dificuldade de ir ao banheiro sem razão aparente, propiciam nervosismo e depressão – assim como a ansiedade e o baixo-astral desequilibram a flora e patrocinam as crises. Acontece que as interações perigosas não param por aí: a microbiota parece fazer diferença na probabilidade de desenvolvermos problemas neurológicos. Relações já estão sendo feitas entre a composição da microbiota intestinal com o desenvolvimento de doenças como o Autismo e o Parkinson. A constipação é uma das primeiras manifestações do distúrbio de Parkinson, levantando a hipótese de que a microbiota alterada leve à destruição de neurônios intestinais e isso progrida até o cérebro

Efeito dos probióticos nas emoções: estudos

Na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, 36 mulheres foram divididas em dois grupos: o primeiro consumiu lácteos com probióticos durante um mês. O segundo tomou uma bebida sem aditivos. Após esse período, todas as voluntárias passaram por um teste em que olhavam para fotografias de indivíduos com feições de raiva ou medo. Enquanto elas participavam da tarefa, seu cérebro era analisado por um aparelho de ressonância magnética. O resultado: nas mulheres que ingeriram os probióticos, as áreas da massa cinzenta responsáveis por processar as emoções ficavam muito menos ativas, sinal de que estavam mais calmas e relaxadas. Na vida real, isso implica estar preparado para lidar melhor com os reveses do cotidiano.

Estudos em animais já demonstram que a suplementação com probióticos  aumenta a produção intestinal de Triptofano, portando, elevando os níveis de Serotonina e GABA, oque pode justificar a mudança de comportamento e padrão emocional tanto em animais quanto em humanos consumindo probióticos.

E aí, está convencido da importância de alimentar bem os bichinhos que vivem na sua barriga? E olha que a influência nas nossas emoções é só uma mais diversas funções importantes que eles fazem pra nós.

Sendo assim, a higiene alimentar e a higienização dos intestinos também são essenciais à prevenção e à reversão dos quadros de distúrbios emocionais e problemas mentais, que cada dia aumenta percentualmente o número de casos em todo o mundo.

A alimentação moderna, com tanto refinados, aditivados e agrotóxicos, pode estar fazendo com que os intestinos padeçam, dificultando todas as nossas inteligências.

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